042.Depois de ler A Woman I Once Knew, de Rosalind Fox Solomon
Djaimilia Pereira de Almeida
Nota
22 de Fevereiro de 2026
Sou dos fritos de limão que fazíamos em Agosto, enquanto a avó, sentada, nos ditava a receita, e nos levavam de volta às festas dos vizinhos em Luanda, quando todo o prédio se juntava nas escadas para cozinhar, sou do meu pai a dormir quase toda a minha infância, sou da noite de malária, quando o convidado da festa entrou no quarto e me fez cócegas, não me lembro da cara dele, nem do que aconteceu depois, sou das vizinhas, que me encostavam a um canto e me encurralavam e me apalpavam e me beijavam, sou dos fatos dos meus tios pendurados em cabides pela casa, suspensos em cordas da roupa, porque não havia guarda-fatos, sou do colchão cheio de pulgas e do avô a pôr insecticida nas almofadas antes de se deitar, sou do meu tio a ouvir Otis Redding no quarto e do seu beliche vermelho enferrujado, sou da corda que o avô amarrava à cintura para prender as calças de bombazina, porque não tinha dinheiro para um cinto, sou do relógio de pulso avariado que o avô usava, sou das chicotadas que ouvia dentro da minha cabeça, quando era menina, sou do rés-do-chão do prédio, onde não vivia ninguém, do qual exalava um cheiro a corpos em decomposição, sou de adormecemos, eu e a minha mãe, à espera do barco para o Barreiro, sou do nosso primo que morreu no sono, quando era bebé, sou de ir com o avô experimentar as escadas rolantes da nova estação de Alcântara, sou da queimadura que fiz na mão esquerda quando era pequena, não sei quem me queimou, sou do meu pai a dormir nu, agarrado a mim, e de a avó se zangar com ele por isso, sou do xaile de feltro que a minha mãe usava quando vinha a Lisboa e de todas as ciganas de mantos negros que lhe liam a sina no Parque Eduardo VII, sou da minha mãe dizer que ser gay é uma coisa satânica, sou da garrafa de whisky que o meu pai escondia atrás da porta da cozinha, sou do arsenal de armas de guerra no quarto do Marley no Bairro de Santa Filomena, sou do dia em que a Cátia me levou a conhecer o pai dela, que vivia sozinho e bêbedo num prédio devoluto e ela gritou cá de baixo, “foda-se, aparece, caralho!”, sou de acordar a meio da noite para dar o biberão ao meu irmão, sou da gruta onde o Leo me levou para eu conhecer a mãe dele, viviam debaixo da linha do comboio, em Mem-Martins, sou das senhoras da fábrica onde trabalhávamos e de quando nos diziam que trabalhássemos mais devagar na linha de montagem, sou da noite em que deixei de gostar de sair à noite, sou da Cátia a ensinar-me a só pôr o preservativo passado algum tempo, sou do cheiro a amoníaco na casa de banho dos avós, que nos asfixiava, sou de não haver nada para comer em casa a não ser um pacote de bolachas de água e sal, sou do calo no dedo médio da mão direita de escrever à mão sem parar, e do dedal cor de rosa que passei a usar com orgulho, sou do primeiro cigarro que fumei, debaixo de um viaduto, na noite em que o meu irmão nasceu, sou da minha avó a rir às gargalhadas, de óculos escuros, à porta da sua vivenda no Menongue, sou de não conseguirmos largar-nos e nos enrolarmos na rua, em jardins, no cinema, na praia, sou da pregadeira de âmbar que a avó tinha guardada na gaveta, sou dos estendais do pátio, feitos de pau e corda, a balançarem na brisa de Julho, sou do vison da avó, que experimentávamos quando éramos pequenas, sou do jardineiro da escola, baixote de bigodes compridos, a quem chamávamos Zé Sacho, que se masturbava à nossa frente, atrás da cantina, sou da turma inteira a gozar com a Bruna, porque ela não lavava o cabelo e tinha as unhas sujas e cheirava mal, sou da Sónia a ensinar-me o que era estar de pau feito, sou do meu pai levar-me à cervejaria ao fim da tarde e de pedir para mim um pacotinho de amendoins e um Sumol, que eu bebericava, enquanto ele bebia imperiais, sou de dar beijos na boca dos meus primos, escondidos no quarto, como víamos nas novelas brasileiras, sou dos adultos dizerem mal dos amigos à nossa frente, e depois vermos que eram hipócritas quando estavam juntos, sou do meu tio a dizer-me, no pátio da ala psiquiátrica, que mataria o meu marido, sou das nossas noites embriagadas a dançar Let’s Face the Music and Dance, sou de nos estranharmos quando começámos a dormir na mesma cama, sou de nenhuma de nós saber se gostava de homens ou de mulheres, sou da minha mãe a dizer-me que não era minha mãe: encontrei-te no contentor do lixo e trouxe-te para casa por pena, sou eu e o meu pai a experimentar o comboio da ponte, na semana em que abriu ao público, sou de tudo o que não sei sobre a minha vida.