Bónus
001.Around the House
Robert Adams

Humberto Brito
Resenha

Publicado no Observador.
Fraenkel Gallery, 2016.

Há um contraste flagrante, embora só aparente, entre toda a carreira fotográfica do norte-americano Robert Adams (n. 1937) e o seu livro Around the House (2016). É um falso contraste cuja inteligibilidade remonta há cinquenta anos.
        Por volta de 1975, William Jenkins, curador da George Eastman House, em Rochester, reparando na semelhança entre as séries fotográficas de Edward Ruscha e a fotografia de alguns jovens fotógrafos, que não se conheciam entre si, notou que estes talvez formassem uma nova família na história da fotografia (ou, pelo menos, uma família tresmalhada: uma série de netos de Walker Evans, por assim dizer). Propôs-lhes uma exposição conjunta, que deu origem a um livro com o mesmo nome: New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape. Robert Adams era um destes fotógrafos. A par de Lewis Baltz, Frank Golke, Nicholas Nixon, Stephen Shore, John Schott, Henry Wessel Jr, assim como dos fotógrafos alemães Bern e Hilla Becher. A família fotográfica de Adams interessa-se pelo alcance da “fotografia em estilo documental”, para usar uma expressão de Evans, concentrando-se, de meados de 1960 em diante, nas alterações produzidas na paisagem pela suburbanização e pela indústria no território norte-americano. Deslocando a atenção fotográfica para a paisagem alterada, esta colaboração alteraria para sempre a paisagem da fotografia.
    Aos 38 anos, não sendo propriamente um “jovem fotógrafo”, Adams abandonara de vez uma carreira académica curta e exasperante. Entre 1968 e 1974, em parte com o apoio de uma bolsa Guggenheim, realiza os seus dois primeiros trabalhos fotográficos de relevo, The New West (1974) e Denver (1977).
       “Animado pela raiva e sustido pela sua pureza”1, o trabalho de Adams descreve a suburbanização do Oeste americano, em particular, em torno do Colorado, onde cresceu. Reflectindo sobre a relação conturbada do seu país com a natureza, ou antes a má relação do capitalismo com a natureza, Adams notabilizou-se, de então para cá, por uma série de trabalhos e escritos acerca de uma paisagem e arquitectura problemáticas, e ainda acerca da fotografia como instrumento de reflexão e de vindicação de uma perda sem remédio. A natureza, a beleza, o sofrimento e o modo de vida do Oeste americano são tópicos preponderantes do seu pensamento, numa obra extensa e singular, composta por livros de fotografia, exposições e vários volumes de ensaios.
        Toda a sua carreira é portanto fotografada fora de portas. Em Around the House há somente imagens capturadas em sua casa ou em torno dela. A conspicuidade do contraste levará a que não se compreenda bem um livro e uma atitude fotográfica já de si menosprezados. São setenta e uma imagens a preto e branco — de interiores, do seu jardim e da casa e do céu vistos da perspectiva deste jardim. Adams corrobora a percepção de o livro ser estruturado em torno de uma só estação2 e pela passagem de um dia completo. As primeiras imagens descrevem uma luz matinal, que, nas imagens de exteriores, gradualmente escurece, até anoitecer por completo, ciclo fechado por duas imagem da casa às escuras: ora de noite, iluminada por dentro, salientando uma interioridade redentora; ora de luzes apagadas, contra um céu tudo-nada menos escuro, que uma mudança ténue da direcção da luz sugere ser de madrugada. Imagens a que se segue uma coda de significado histórico e pessoal, que não deixa de ser um regresso ao princípio: a saber, uma última sequência de nuvens, contra o céu da manhã, evocando Stieglitz, ou antes, amnistiando-o a respeito das célebres imagens de nuvens, cliché ou cedência que Adams sempre menosprezara publicamente. Seja como for, a conclusão do livro é a conclusão de um ciclo já antigo, inseparável da sua decisão de mudar de vida para fotografar a perda do Oeste.
    
        No ensaio intitulado ‘In the Twentieth-Century West’, escrito ao longo de um retiro numa casa possivelmente a mesma de Around the House (situada numa colina sobre a foz do rio Columbia, numa pequena cidade de Oregon), Adams refere-se a um episódio fundamental da sua vida decorrido numa visita à Alemanha. Episódio este que abrevia todas as explicações necessárias a respeito deste último livro. Tendo algum tempo livre, conta, confiou nas sugestões de certo guia turístico, que aconselhava visitas a igrejas desenhadas por Rudoph Schwarz. 

Acerca de uma igreja, localizada num subúrbio [de Colónia] de resto desprovido de interesse, lia-se no guia que lembrava — uma vez que Schwarz conseguira misteriosa-mente permear a estrutura com uma luz natural que parecia não ter fonte — a definição de Igreja Ortodoxa Oriental: um edifício, análogo à mãe de Cristo, que contém o incontenível. Para meu espanto, era exactamente assim. Esta igreja, a igreja de São Cristóvão, em Colónia-Neil, era diferente de qualquer edifício religioso americano moderno que eu conhecesse. Ao fundo do santuário havia, sobre betão de resto limpo, um desenho o mais cru possível do Cristo ressuscitado; ao lado dos bancos, havia outro, igualmente simples, de um anjo cujo rosto estava virado para os devotos, com um dedo nos lábios pedindo silêncio.” 
 (Robert Adams, ‘In the Twentieth-Century West’ (1986), Why People Photograph?, Nova Iorque, Aperture: 1994, 170-171)

— Esta é, já agora, uma das imagens centrais de Around the House: a de uma pequena escultura em madeira, esculpida por Adams, inspirada neste desenho, a qual, antes de conhecer o ensaio em que a refere, tomei por uma extraordinária metonímia da atitude geral da sua fotografia: de certo modo, uma auto-definição. — “A minha memória da Alemanha”, continua Adams, 

“que no mais é a de uma geografia quase inteiramente perdida, sofre uma transformação através da lembrança das minhas visitas a meia dúzia de igrejas por este único homem. Lembrar-me delas ajudou a sugerir-se-me, ao regressar à América, que não apenas as igrejas, mas toda a paisagem urbana e suburbana poderia revelar-se sagrada se apenas lhe emprestássemos um pouco do olhar agraciado que Schwarz trouxera aos seus trabalhos religiosos. Foi, de certo modo, por isso que comecei a fotografar, para ver se era capaz de encontrar, através de imagens, um equivalente emocional ao daquelas igrejas”  (idem, 171).

       Adams passaria o resto da sua vida em busca deste equivalente emocional como modo de reparar a perda do Oeste, e a perda inexorável de uma certa visão da América, ou, para facilitar, a perda da natureza.
    Questionado acerca da omnipresença de plantas em sua casa e em torno dela, Adams comenta que Around the House é em grande medida um livro sobre a natureza, tomada na sua possibilidade domesticada como um elemento protector. “Se os dois factos mais indiscutíveis da vida são o sofrimento e a beleza, uma casa deve, creio, ser imaginada e mantida de modo a mitigar uma e reforçar a outra”, considera, acrescentando pouco depois, a respeito de uma sequência de fotografias de capuchinhos (chagas, nastúrcios) numa jarra que “os capuchinhos, dentro e fora de casa, são muitas vezes uma das principais defesas contra ficar a saber as últimas de Donald Trump”. A par da natureza, mais do que mecanismos de defesa e tudo menos ornamentais, surgem neste livro livros e excertos de livros, e imagens de livros; pássaros e imagens de pássaros; versos e imagens de versos (alguns deles gravados nas paredes da casa, outros gravados em madeira, e em molduras, pelo próprio Adams, num cursivo idêntico); a arte, a oficina, as ferramentas, o estúdio, a câmara escura, a leitura; e, claro, Kerstin, sua mulher desde os tempos de faculdade e, apetece dizer, co-autora, presente nalgum sentido em cada uma das suas obras — elementos indiscerníveis de Adams, natureza de outro género. São artefactos de uma segunda natureza, indiscerníveis da sua busca fotográfica continuada. A posição relativa de cada imagem sugere, como sempre acontece nos livros de Adams, um estudo delicado do conjunto. O princípio de arrumação do livro lembra o de uma casa pensante. “Duration is nothing, association everything”, diz uma das inscrições fotografadas, comentando a arrumação da casa e a arrumação do livro, e a arrumação da vida.
    
        Marcado pela perda de visão do fotógrafo, o que não deixa de explicar a distância dos objectos um pouco diferente do habitua, este é, sem dúvida, um livro de velhice. Mas só os tolos poderão imaginar um atenuamento de qualidades; e é provável que os mesmos se deixem iludir pelo contraste de superfície entre estas imagens domésticas e as imagens da paisagem alterada que o notabilizaram. Robert Adams descreveu uma vez as tribulações que atravessou para contornar a exigência, da parte de editoras e galerias, de comentar as suas próprias fotografias, tendo recorrido uma série de estratagemas: 

“A melhor maneira de evitar falar das [tuas] fotografias é falar acerca dos seus assuntos — casas geminadas ou campos ou árvores ou seja qual for da míriade de detalhes interessantes da vida. Se tens de compensar o silêncio de uma fotografia, a maneira menos destrutiva parece ser falar acerca daquilo que estava em frente da câmara, em vez de falares acerca daquilo que te levou a fazê-la”. (‘Writing’, Why People Photograph, Aperture, Nova Iorque, p. 35.)

Da tentativa de (re)encontrar não só através das igrejas americanas, mas sobretudo através paisagem urbana e suburbana, ou antes através da fotografia, um “equivalente emocional” ao silêncio límpido das igrejas de Schwarz3, dessa tentativa resulta um certo tom, que define toda a sua obra e que encontra a paz no conjunto de fotografias publicado sob o título Around the House. “Penso por vezes que se [tais igrejas] existem nos Estados Unidos, serão pequenas, até mesmo anónimas por fora, concentrando-se para o interior, abrigando uma quietude separada da rua, mas que a redime” (itálico meu). Eis a melhor descrição desse tom e do objecto deste último livro. Não existe, entre esta e o resto das obras de Robert Adams, propriamente um contraste, senão de superfície, ou de superfícies. Existe, antes, uma solução, se é que, para a perda da paisagem, existe uma solução.



1.    Tod Papageorge, ‘Robert Adams — What We Bought’, Core Curriculum, Nova Iorque, Aperture: 2011, 147, trad. minha.
2.    Infere-se da entrevista a Modern Art Notes (episódio de 10 de Março de 2016) que o conjunto descreve um Verão recente numa pequena cidade do Oregon, onde actualmente reside.
3.    “[Em] vários sentidos, um objectivo ingénuo”, segundo Adams.