011.Sea Coal
Chris Killip
Djaimilia Pereira de Almeida
Resenha
Publicado na Quatro Cinco Um, 2019.
Steidl, 2011. Imagens no site do autor
É preciso respirar fundo várias vezes enquanto se folheia Seacoal, do fotógrafo britânico Chris Killip (1946 – 2020), apesar de nada nele ferir qualquer susceptibilidade. Há muito tempo que um livro não me impressionava tanto. Poucas vezes testemunhei num livro tamanha nobreza. As pessoas são mostradas com uma tal honradez. Killip é um com eles, tornou-se uma deles, os apanhadores de carvão da praia de Lynemouth, Northumberland, Inglaterra.
Li depois o obituário de Chris Killip no Guardian. Vejo que morreu nos Estados Unidos da América. Casou com uma administrativa da universidade de Harvard, onde foi primeiro leitor visitante, desde 1991, e, depois, professor emérito e director do departamento de Estudos Visuais e Ambientais.
“Killip tentou fotografar pela primeira vez Seacoal Beach em Lynemouth, Northumberland, Inglaterra, em 1976, mas levou seis anos a ganhar a confiança das pessoas que lá trabalhavam. Vivendo, dentro e fora, numa caravana no campo de Seacoal em Lynemouth, de 1982 a 1984, Killip mergulhou nas suas lutas pela sobrevivência”, escreve a editora Steidl, que publicou Seacoal em 2011.
Escreveu Killip: “Quando vi a praia em Lynemouth pela primeira vez, em Janeiro de 1976, reconheci a mina de carvão e a indústria acima dela, mas nada mais. A praia por baixo de mim estava cheia de actividade com cavalos e carroças encostadas ao mar. Os homens estavam de pé no mar junto às carroças, usando pequenas redes de arame presas a postes para pescar o carvão da água que se encontrava debaixo delas. O lugar confundia o tempo; aqui a Idade Média e o século XX entrelaçavam-se”.
Tamanha honradez no olhar e respeito por quem se fotografa. Quanto tempo é preciso para conseguir isso? Quanta nobreza de carácter — e como ela se engendra, se é que se engendra? Chris Killip põe-nos em cheque. Seacoal é um livro virtuoso.
No texto que o inicia, Killip conta como foi abordar os apanhadores de carvão e como finalmente, após anos, num dia em que o tinham ameaçado de morte, foi até ao bar onde se encontravam e um homem entre eles, duvidavam então que fosse fotógrafo e pensavam que trabalhava para a segurança social, foi esse homem, um estranho que conhecera uma vez noutra jornada fotográfica, quem o salvou e lhe deu salvo-conduto para fotografar a praia. Killip viveria numa caravana perto dos apanhadores de carvão, durante catorze meses e faria estas fotografias.
Em Seacoal, como o próprio afirmou, a Idade Média entrelaça-se com o século XX. Há automóveis na praia e caravanas e carroças com cavalos, com chaminés ao fundo, da indústria. Neva, e os cavalos e as crianças estão no gelo, os dedos e os cabelos sujos de carvão. Algumas imagens parecem ter sido feitas quando Killip montava um cavalo. As crianças estão sujas e alegres. Têm cachorrinhos rafeiros. Os homens, em casaco de fazenda, e camisolões de lã, são patriarcas honestos, saídos doutro tempo. As adolescentes parecem pressentir que há outra vida e, ao mesmo tempo, não querem senão ao mundo que conhecem.
O que mais espanta é, como disse, a virtude no olhar de Chris Killip. Talvez hoje em dia falar nessa virtude pareça uma ingenuidade, uma falta de noção. Não há, porém, outro meio de o dizer. Existem muitas formas de retratar a luta pela sobrevivência dos nossos semelhantes. Aqui, a situação dos apanhadores de carvão é capturada de um modo que não a sublima ou a romantiza. Killip é absolutamente preciso e contido. Não está na praia de carvão de Lynemouth para explorar os apanhadores e as suas famílias. Fez-se um deles e, não exagero, ama-os na medida em que são seus vizinhos.
Com frequência, aliena-se à partida qualquer modo de abordar a pobreza, no domínio da arte. Muitas vezes, porém, as queixas acerca do que seriam abordagens sublimadas e auto-indulgentes só escondem a vontade de arredar dos nossos olhos a pobreza. Não digo que todos os modos de a mostrar sejam igualmente bem-intencionados, ou nobres. Só me parece que vai existindo menos espaço para procurar o meio de conduzir a nossa vista na direcção de quem não está à vista por um preconceito que nada tem que ver com um escrúpulo na exploração alheia, mas reside apenas num modo encoberto de disfarçar o facto de que não nos apetece sequer ver (ou chegar perto) do modo de vida de tantos de nós. O escrúpulo cínico a respeito da exploração esconde, então, a vontade de manter à distância, de afastar da vista. O que escolhemos ver e não ver revela-nos a nós e a quem somos. O modo como mostramos os outros mostra-nos a nós. A honradez que se testemunha, em Seacoal, nos apanhadores de carvão da praia de Lynemouth, é a honradez de Chris Killip.
Seacoal não documenta a pobreza ou qualquer fenómeno social. Narra com amor verdadeiro a situação numa praia de carvão do norte da Inglaterra, nos anos 80 do século XX. Nunca tinha visto um livro assim. Seacoal, de Chris Killip, não é apenas uma obra-prima, um bom — enorme —livro. É um livro bom..