Bónus
012.Fernweh
Teju Cole

Djaimilia Pereira de Almeida 
Resenha



MACK, 2020.

“Fernweh é o antónimo de Heimweh (saudades de casa). Significa a vontade de estar longe.” É desta forma que Teju Cole explica o título do seu penúltimo fotolivro, Fernweh, antologia de várias viagens à Suíça entre 2014 e 2018: “fui à Suíça, e continuei a ir. Lembro-me de muitas tardes de deriva e solidão, nas cidades, nas aldeias, nos ferries, nos trilhos, na paisagem e nas montanhas. Uma herança colectiva parecia estar preservada ali, um longo poema numa língua ameaçada, um microcosmo de vulnerabilidade planetária, e comecei a ter saudades de regressar a esse terreno”.
    Quase não há pessoas em Fernweh, salvo o homem atrás da câmara. “Observados de perto, todos os mundos parecem eles mesmos estar a pensar, a lembrar-se de si mesmos.” Transpondo este pensamento das cordilheiras, lagos, esquinas, rochedos, barcos, curvas, caminhos abertos e mapas de Fernweh para os lugares que nos são próximos, questiono-me se estarão próximos de mais para os vermos tão bem quanto conseguimos ver um lugar estranho. O viajante não parece precisar dos mesmos óculos de leitura de que precisamos para ver o lugar onde vivemos. Ou a viagem é remédio para a miopia ou a miopia é condição da familiaridade (e não haja óculos de leitura que valham).
    Fernweh conta do olhar de um estranho em visita. A câmara aponta para o chão, a dobra inesperada, instantes anódinos e não decisivos, que passariam despercebidos, porventura, aos habitantes locais. É um livro feito por uma pessoa incompreensível, aquela que outras, vendo-a parar a meio do caminho, e disparar a câmara, não percebem o que a atraiu nas vistas. Colecção de anti-postais, Fernweh é um anti-postal da Suíça exactamente porque “poucos lugares parecem tão próximos do seu postal perfeito como a Suíça”, dificuldade acrescida para o fotógrafo, cujos olhos chegam cansados à Suíça antes mesmo de lá ter aterrado. Muitos outros pesam sobre as pálpebras, reconhece Teju Cole, viajantes oitocentistas, outros fotógrafos, milhões de turistas anónimos, dos frescos plastificados da publicidade ao chocolate até à viagem de James Baldwin pela mesma paisagem, em “Stranger in the Village” (“Um estranho no vilarejo”), anotações célebres à margem de uma estada em Leukerbad, publicadas em 1953. Baldwin discutira nesse ensaio a noção de, em terra estranha, se sentir o primeiro negro avistado no mundo. Mas como pode um homem negro chegar hoje à Suíça, sem chegar à Suíça depois de James Baldwin? 
    A dificuldade de ver está na raiz de Fernweh e, quem sabe por essa razão, são tão escassas as figuras humanas que encontramos no livro. Se “a intimação de um certo desaparecimento” o perpassa, esta é menos a do desaparecimento das pessoas ou da pessoa do autor e mais a intimação do desaparecimento do seu rasto, como se, a braços com um “lugar mágico”, pelo qual se ansiou à distância, o fotógrafo se visse compelido a arriscar fotografar sem ser encontrado. E, então, o anti-postal é, ele mesmo, a anti-viagem, como se também a visita do estranho não tivesse acontecido e as fotografias do lugar distante pudessem ter sido tiradas sem lá ter estado, sem o ter pisado, ao contrário dos postais, que nos dão notícia de outros mundos, porque alguém lá esteve. 
    Aproximo Fernweh de postais de uma viagem à Suíça, coleccionados por viajantes portugueses, em meados do século passado. Estão anotados por um casal e guardados num álbum forrado com um tecido florido. A inscrição “A nossa viagem aos Alpes — 1947” abre o álbum, encontrado numa feira de antiguidades perto de Lisboa. As fotografias da viagem foram coladas ao lado de postais dos mesmos sítios. Estiveram lá e tentaram fotografar a paisagem tal qual os postais, criando os seus próprios postais, anotados e guardados no álbum, no regresso. Porque quererá alguém transformar a sua passagem por um lugar num postal desse lugar? Reencontramos este impulso nos biliões de imagens do Louvre, em qualquer hashtag das Sete Maravilhas do Mundo. Parece quase que a convencionalidade da prova material de que se esteve longe acompanha a ânsia de estar longe. Não será o próprio anseio de distância um postal? Se Teju Cole tenta em Fernweh o anti-postal, Fernweh está impregnado dessa tentativa. Nenhum anti-postal (e nenhuma anti-viagem) se compreende sem ter em conta todos os postais (e todas as viagens). Como um mundo se pensa e se lembra de si mesmo, assim o visitante se pensa e se lembra de si. Apenas por pouco, em Fernweh, a deriva não cede à lassidão, apesar dos quartos de hotel, fotografados de dia, da cama, evocando a sesta do viajante; nos andaimes, tapumes e montras ao entardecer, evocando o giro depois da sesta de um turista atento e sem relógio. Talvez a Suíça exerça este feitiço nos passeantes, em Teju Cole como nos anónimos do álbum antigo, ausentes nas fotografias das suas férias e, nessa medida, tanto mais à vista. Ou, quem sabe, mesmo um estranho em visita possa arriscar perder-se.