Bónus
014.Drift
Hélio Marques Pereira

Humberto Brito
Resenha

Ed. de autor.
Lisboa, 2020.
Para lá da superfície, a corrente; a corrente e a deriva; ou seja: Drift. Não seria preciso dizer mais do que o título para descrever o que move este primeiro livro de Hélio Marques Pereira, um de cujos motivos, o apelo as superfícies, é, ironicamente, um apelo de superfície.
        Não que seja de pouca importância. A fotografia em estilo snapshot, enfatizando (com uso frequente de flash) reacções espontâneas à superfície da vida; o interesse pelas estrutruras automáticas do olhar, reveladas ao próprio fotógrafo por via de uma acumulação de gestos por instinto; a sugestão implícita de um sujeito de passagem ou em trânsito; — tais elementos fariam supor semelhanças, por exemplo, com American Surfaces de Stephen Shore. Porém, o trânsito de Shore era disciplinado e exaltava um certo sentido de pertença (lidava com um momento específico num país específico). Já este livro descreve uma deambulação livre por uma paisagem asiática inespecífica, apetece dizer, por uma cidade compósita, ficcional: uma reconfiguração de fragmentos de cidades de diferentes países, não se sabe exactamente quais, nem quando. (O livro tem imagens do Tóquio e de Banguecoque feitas em 2018, mas este facto é negligenciável.) Não existem neste caso anotações meticulosas ou um jogo autoconsciente com regras definidas; apenas, um contínuo de imagens e um deixar-se ir — imagens que aliás não são, em si mesmas (e nisto culmina a desanalogia com Shore), a questão.
        Em Drift, a experiência da fotografia tem sempre prioridade sobre as imagens em si (e portanto sobre a fidelidade às superfícies). As imagens só readquirem dignidade visual por via do modo como o livro as coopta retrospectivamente, criando um movimento na direcção de uma síntese da experiência da deambulação, gerando a ficção de um fluxo. Fluxo é a palavra certa. Entre os fotógrafos vocacionados para a exploração do não-eu, existe um espectro que vai do fotógrafo-investigador ao fotógrafo que flui: por assim dizer, do cientista social ao surfista fenomenológico. Hélio pertence a esta última categoria. Que motivos flagrantes deste livro sejam também os elementos aquáticos e os elementos tubulares, símbolos do fluxo e da passagem, não deixa de ser sintomático, motivos que apontam (de novo) para uma prioridade da experiência da fotografia sobre a fotografia, se quisermos, para uma prioridade do fluxo sobre a espuma. Tal é sinalizado ainda por um (desconcertante) quase desapego pela imagem — desapego que casa bem com as escolhas formais e materiais da peça-livro — em nome de sugerir ao leitor antes um certo tipo de experiência: não uma flânerie mas a busca de um fluxo; uma busca mais severa consigo própria que o colorido do conjunto poderia fazer pensar.
        Se há fotógrafos para os quais a fotografia é uma ocasião para encontrarem coisas no mundo, para Hélio Marques Pereira ela é, sobretudo, um modo de se perder no mundo, de facto, de nele se deixar perder — de se deixar levar. Aquela busca de um fluxo pode por isso ser redescrita como a busca de uma experiência de deriva. O ‘eu’ deste livro caracteriza-se pela tentativa de se esquecer de si mesmo no processo de ser levado em deriva. Mas isto levanta a pergunta: o que é, para um fotógrafo, tal experiência de deriva senão um procurar perder-se das suas próprias referências fotográficas? Que algumas dessas referências sejam reconhecíveis (ecos da fotografia contemporânea europeia e japonesa) significa que o processo de se perder delas seja inseparável do processo de se esquecer daquilo que se acha que uma fotografia deve ser. A experiência de deriva deste livro expressa-se no modo como um ‘eu’ procura libertar-se não já do peso da tradição mas do peso da própria contemporaneidade.
        Vejo a cidade asiática desconhecida deste livro como um símile da contemporaneidade, um território em cujas superfícies esta projecta indiscriminadamente os seus fantasmas, ou talvez, em cujas superfícies se projectam os fantasmas de um ‘eu’ flutuante, fotográficos e existenciais, um ‘eu’ que ao mesmo tempo os reconhece e deles se despede sob o ponto de vista não de um turista contente por se ter perdido mas de uma garrafa de plástico levada pelas águas. Que isto presume uma grande chuva anterior, um ciclone pessoal, parece-me necessário e evidente, mas o livro de Hélio Marques Pereira tem a elegância de não o dizer. Percebemo-lo pelo silêncio. O que torna este livro um grande livro sobre a aceitação: a aceitação circunspecta das superfícies, e para lá das superfícies, a aceitação da corrente; a aceitação da deriva.