020.Farleigh
Tito Mouraz
Humberto Brito
30-12-2021
Resenha
Galeria 3+1
Lisboa, 2023
Esta nova série de Tito Mouraz não nos fornece qualquer bússola histórica ou geográfica fiável. Tão cénica quanto desconexa, a paisagem de Farleigh sugere uma grande expansão solitária, cujos escassos habitantes se ocupam com actividades paradoxais. Um jardim formal no meio do nada diz-nos que houve ali talvez uma cultura, ou uma imitação de cultura, e uma sociedade de zeladores. A julgar pela excentricidade dos costumes, pela timidez dominante, e por uma arquitectura de resto incongruente e monolítica, pode dar-se o caso de não serem arbustos, mas habitações. Até os artigos de vestuário são aqui âncoras temporais bastante genéricas, a partir das quais tanto o etnólogo como o historiador teriam sérias dificuldades em precisar informação interessante. A série Farleigh revela um lugar desconhecido no sentido em que nunca é claro aquilo que nos revela.
Isso é desconcertante num conjunto de imagens claras e directas; isso é subversivo num fotógrafo empenhado nas virtudes da fotografia tradicional; isso é irónico num ensaio sobre revelação. Nenhuma destas imagens é encenada. O véu de estranheza não advém de elaborações neo-pictoralistas, nem se deve a qualquer método fotográfico esotérico. Fotografia pura e simples, sem efeitos especiais, a não ser o recurso calculado à luz artificial, tão novo quanto Jacob Riis. Tal como Riis, o homem por detrás da câmara é em muitas destas fotografias o último elemento civilizacional diante da fronteira do não-humano. São neste caso intimações do centro da terra: apontam na direcção de um interesse pelo núcleo, pela forma latente que se revela senão pela passagem do tempo. Temos por um lado a temporalidade extra-humana, tectónica, em que Tito Mouraz intui uma função reveladora. Apetece dizer que o éon está para os fósseis e minérios como a gestação para o abdómen. Para nos dar uma medida de escala, vemos o cúmulo do inóspito ante a mais perfeita forma de hospitalidade, elevações vulcânicas ante o ventre materno, ambos, sob certa perspectiva, belas esculturas naturais. Idêntica função de escala têm as imagens de estradas recônditas e ilocalizáveis, breve recordação de que nos situamos no Antropoceno. O autor parece querer esclarecer-nos de que estamos a olhar para o mundo na perspectiva de uma era geológica.
Por outro lado, temos ainda imagens cuja temporalidade tende para o onírico, ou mesmo para o atemporal: de novo, mas de forma diferente, para uma visão não-histórica. Os clarões na noite são paradigmáticos. São imagens de objectos cujo peso não tem coordenadas históricas. Talvez seja impreciso socorrermo-nos aqui a conceitos como ‘peso’ e ‘leveza’ e ‘coordenadas’. Fazem antes pensar num catálogo de arquétipos, que, por definição, são destituídos de peso e independentes de coordenadas. Se nos situávamos antes na dura fronteira da physis, vemo-nos agora num plano mental. Como se fosse possível fotografar o inconsciente. De certa maneira, não é esse o sonho modernista? Não é fotografia, frequentemente, um instrumento de revelação do inconsciente, não é ela uma via de revelação do ‘eu’ no ‘não-eu’?
Do catálogo de arquétipos vamos gradualmente para uma colecção de sonhos moldados em memórias, assinalada pela espessura cromática e pessoal, caracteristicamente exuberantes na obra de Tito Mouraz — uma colecção de clarões sem narrativa. Pessoas, ramagens, eflorescências, rebentações: todas estas visões são perfeitamente claras e no entanto nunca sabemos o que estamos a ver. Se o conjunto pode ser bem descrito como a territorialização ficcional de um estado de alma, esse estado parece ter origem numa pulsão apocalítica: numa luta constante com a busca da experiência da revelação. Confrontado com as suas próprias imagens, o artista não nos propõe narrativa redentora, antes, uma descoberta. A de que a experiência da revelação é sempre demasiado ofuscante. Aquilo que Tito Mouraz nos mostra com estas imagens é a opacidade da revelação.