Bónus
022.Casa na árvore

Djaimilia Pereira de Almeida
Fragmento

Para o livro Atelier, de Carlos Nogueira
Ed. autor, 2022.


As persianas cortam a luz e deixam o grande jardim à porta. Mas o que está lá dentro, paredes meias com as árvores e os pássaros, vive em consonância com o lá fora: as conversas na esplanada, o rodar das cadeiras de rodas dos pacientes de um centro médico ali perto, o vento nas folhas dos plátanos, as vozes das crianças. O atelier de Carlos Nogueira é casa na árvore, na floresta. Os galhos, ferro. A luz, vidro e tinta. Lá dentro, um inventário da brincadeira coloca a par o vidro com o vidro, o aço com o aço, o ferro com o ferro, a madeira com a madeira, frasquinhos, caixas, objectos, palavras que, entrando no atelier, morrem para o mundo aparente onde vivemos e encontram o seu lugar no cemitério das surpresas. E, como nessas casas a fingir, casas na árvore, é como a um menino que vejo o artista apagar a luz, regressar à rua, trancar o cadeado da porta e seguir para casa, quando anoitece. Julgávamos que ninguém estava no atelier, que estávamos a salvo na floresta, que as persianas estavam corridas e lá dentro reinava o escuro. Mas ele via‐nos, éramos vistos, escultor daquilo que pensávamos mostrar, sem sabermos, afinal, nada.