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023.I Would Run This Way Forever
Carlos Lobo

Humberto Brito
Resenha

Publicado em Compendium 2 (2022): 243–246.
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I would run this way forever (and over again) — o que diz este título? Pode querer dizer que o fotógrafo não vai continuar a fazer certa coisa, ou que não vai continuar a fazê-la assim. (Que desperdício seria.) Pode também expressar a vontade do fotógrafo de continuar a fazer essa mesma coisa dessa mesma maneira, infinita e repetidamente. Visto que nada o impede, porquê “would”? Sugere isso que um artista não pode continuar a fazer sempre a mesma coisa? (Porque não?) Ou está Carlos Lobo a tocar um nervo da arte: a forma como se muda de direcção consoante o favor do vento? Pode ainda significar, sem ironia, que mudar é, por vezes, para um artista, o preço de se ser verdadeiro consigo mesmo. “Eu faria isto desta maneira para o resto da vida,” etc., “mas tenho de mudar.” O condicional sugere uma descontinuidade que faz temer o tom quase elegíaco de algumas destas imagens. 
       Há grandes fotógrafos para os quais a fotografia é um momento singular das suas vidas. Há grandes fotógrafos que se perdem quando encontram o seu rumo. Há aqueles que não sobrevivem ao silêncio crítico e aqueles que não sobrevivem ao êxito. Há grandes fotógrafos simplesmente abandonados pelos deuses: é como se cegassem. Podem respirar de alívio aqueles que acompanham o trajecto de Carlos Lobo (um dos nossos grandes fotógrafos). A mudança para que este livro aponta não sugere nenhuma daquelas coisas e vai quatro passos à frente na direcção inversa. Quanto mais idade tem, menos velho se torna.

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