024.No outro passeio ao lado da esplanada
Pedro Letria
Humberto Brito
Apresentação
Lido na na STET, Lisboa.
Edição de autor, 2022.
Vou começar por fazer uma afirmação enfática, para tirar toda a ênfase do caminho. O Pedro Letria não é um fotógrafo que escreveu um livro: o Pedro é um fotógrafo que também é um escritor, de facto, um grande escritor, que ninguém conhece — ou antes (espero eu) que ainda ninguém conhece. Espero que esta seja apenas a sua primeira obra literária.
Mas dizê-lo desta maneira levanta três questões.
A primeira é trivial. Sendo uma estreia literária, é preciso notar que não é a obra de um estreante. É, por várias razões, o livro de um escritor feito. Ficamos a pensar onde é que ele esteve todos estes anos, o que é uma pergunta bastante injusta, porque ele esteve sempre debaixo do nosso nariz a fazer coisas extraordinárias, sem menos valor que uma carreira literária.
Em segundo lugar, há a seguinte questão: onde é que arrumamos este livro? Por outras palavras, uma estreia literária tende a conformar-se aos parâmetros do sector editorial. Não é o caso deste livro. Olhamos para ele e não vemos um romance ou uma novela, mas dois guiões, Maskirovka e É o que é, acompanhados de sete fotografias a cores. Isto torna as coisas difíceis ao Pedro Letria se ele estiver interessado numa carreira literária. Por um lado, as editoras de fotografia não sabem o que fazer com um livro como este, que só inclui sete imagens e ainda por cima não é sexy, nem jovem, e não tem um discurso empacotado e uma mensagem edificante. Por outro lado, as editoras generalistas também não sabem o que fazer com um livro com este aspecto, porque não se existe mercado para livros de teatro, muito menos mercado existe para guiões originais, ainda por cima sombrios, complexos e desconfortáveis, a cores, com capa dura forrada a tecido. Do ponto vista comercial, isto não devia existir.
E como o sector editorial não encontra espaço para um objecto não convencional, este livro está talvez condenado a não ter da imprensa o reconhecimento que merecia. Na qualidade de fotógrafo, o Pedro já conta com a indiferença dos suplementos culturais, portanto, isso não é grande motivo de ansiedade. A qualidade literária deste livro faz-me aliás acreditar que, se quisesse ter escrito um romance, ou um livro de contos, ou a biografia de um grande empresário, o Pedro teria sido capaz de fazê-lo, e tê-lo-ia feito pelas razões certas e com a exigência consigo mesmo que vemos em todas as suas obras. Isto quer dizer que a forma deste livro sui generis é plenamente consciente da sua dificuldade comercial. O livro tem esta forma em parte porque não pode ter uma forma diferente sem sacrificar a evocação constante do cinema e da figura do actor enquanto dispositivos espectrais, e em parte porque o Pedro não se admitiria perder a oportunidade de honrar o processo que deu origem a este livro fazendo dele um objecto realmente especial.
Em terceiro lugar, sob certo ponto de vista, não é claro que esta seja a sua estreia literária. Obras fotográficas como as do Pedro fazem-me pensar na fotografia como um género literário de pleno direito.
E já agora este objecto literário é rigorosamente fotográfico na descrição dos gestos, dos lugares, das superfícies, e a sua construção textual obedece a princípios que estamos mais habituados a encontrar nos fotolivros, por via de relações visuais, tonais, cromáticas, atmosféricas. Apetece portanto dizer que a literatura é um género fotográfico de pleno direito, ou que a fotografia e os processos da fotografia vieram aperfeiçoar aquilo que a literatura tenta por vezes fazer. O livro do Pedro é nabokoviano na atenção à particularidade da vulgaridade, quer no sentido estético como no sentido moral; é checkoviano na compreensão da falência da dignidade e da virtude, dos subterfúgios e artifícios com que nos auto-descrevemos e auto-representamos. No outro passeio ao lado da esplanada transtorna as categorias habituais. É um livro algumas de cujas melhores fotografias são parágrafos inteiros. Talvez o Pedro não seja apenas um grande fotógrafo que também é um grande escritor, mas um grande escritor ainda na qualidade de grande fotógrafo.
E agora que tirei a ênfase do caminho, uma breve nota pessoal. Alegra-me mesmo muito estar aqui e ser amigo do Pedro, porque o meu interesse pela fotografia começa com o livro Mármore. Esse livro mudou a direcção da minha vida, ou antes, descreveu a direcção em que ela estava a ir antes de eu mesmo o perceber com clareza. Por isso, convite dele para fazer esta apresentação responsabiliza-me a valer. Quando primeiro falei com ele sobre este livro, disse-lhe que esperava que as outras pessoas vissem nele as qualidades que eu vejo, temendo que não lhe fosse feita a devida justiça, já que não o sabemos arrumar nas nossas bibliotecas, nem nas nossas descrições habituais. Sem me alongar muito, aquilo que vou tentar fazer é apontar na direcção de algumas das coisas que me parecem torná-lo interessante, para não dizer extraordinário, visto que já gastei os meus créditos de ênfase.
No outro lado do passeio é composto por três partes: dois guiões e, a separar o primeiro do segundo, uma sequência sem título de sete imagens a cores.
Se o livro Mármore lidava com uma consciência áspera da finitude e com uma percepção de impotência perante a força oceânica das circunstâncias, ou a perda da agência, este novo livro revisita os mesmos problemas noutra perspectiva. Essa perspectiva é agora a de um homem de meia-idade (Diogo) a lidar com a força oceânica da falência da própria cabeça e do declínio do corpo.
Não vou estragar a surpresa falando de mais sobre o enredo e as ligações entre as duas histórias. Posso falar um pouco mais sobre o texto de Maskirovka, visto que já tinha sido apresentado há alguns anos numa exposição no Atelier Concorde, composta por uma curta-metragem e uma série de imagens a cores (que não entram neste livro). É a história (semi-autobiográfica) de um homem que vai à procura de saber o que aconteceu a uma empregada ucraniana que a sua família tinha semi-adoptado. Um dia ela conta uma história sobre problema de família que a obriga a ausentar-se, eles ajudam-na dando-lhe algum dinheiro, e ela deixa de dar notícias. Preocupados, procuram perceber o que se passou. Isso leva Diogo a uma boîte do Cais do Sodré onde tinha havido em tempos uma festa de aniversário da irmã de Galina. Acaba por descobrir — e esta descoberta tem a força de um choque epistemológico — que afinal Galina nunca chegou a partir para a Ucrânia. Foi trabalhar para uma casa de meninas na Amadora. Fim.
De passagem, esse filme é protagonizado por Diogo Dória e João Pedro Bénard. Maskirovka contava ainda com um excelente texto crítico de Emília Tavares, “Verdade ou Consequência? A fábula das imagens.” É preciso dizer uma palavra adicional sobre o modo como o Diogo Dória assentava como uma luva no guião de Maskirovka. Parece quase que foi escrito para aquele actor e já não consigo ler qualquer um dos dois sem imaginar o Diogo Dória no papel de Diogo. A figura destroçada do Diogo-personagem faz-me pensar num fantasma de outras personagens do Diogo Dória, o lastro de fantasmas que um actor carrega no corpo; e as suas falas têm todas aquela aquela dicção distinta e sofrida dele, através da qual as coisas mais pessoais são ditas como se obedecesse a uma vontade superior.
Apesar do nosso (infelizmente) actual domínio dos vocabulários russo e ucraniano, é importante ainda explicar o que significa o termo russo Maskirovka. Significa disfarce, logro, ilusão, e é ainda usado como termo militar, associado à táctica militar soviética, como um conjunto de procedimentos usados para confundir, induzir em erro e camuflar-se do inimigo.
No trabalho que deu origem à exposição no Atelier Concorde, o Pedro lidava com “os mecanismos pelos quais construímos significado a partir do que vemos, em relação ao que sabemos. Em particular, interroga a articulação da imagem fotográfica (e o que esta constrói a partir do facto experienciado) com a linguagem do cinema e a encenação de um texto factual. Como é que o que vemos e ouvimos participa no entendimento das coisas? O que é que a palavra, livre dos constrangimentos do processo fotográfico, permite imaginar e como é que a sua leitura concorre com o que se verifica numa fotografia? Qual é a ligação entre a verosimilhança inerente ao documento fotográfico e a suspensão de descrença necessária à ficção?”
Esta breve explicação torna muito interessante o contraste entre o título dos dois guiões, contraste que ilumina o conjunto. Se o primeiro tem a ilusão e o logro como elemento central (maskirovka), o título da sequela, É o que é, não pode deixar de ser lido com ironia, já que o título do primeiro poderia ser traduzido por “é o que não é” ou “não é o que é”, ou mesmo “não é o que não é”. Sem avançar demasiado a respeito do enredo, nesta segunda parte (a terceira do livro), a investigação de Diogo em busca de Galina leva-o ao mundo fascinante das casas de massagens em quartos esquerdos de prédios residenciais. O que acontece na sequência desta incursão, não o direi, com o objectivo de que comprem o livro para o descobrir.
É um passeio guiado pela Lisboa latente, pelos lugares semi-ilícitos e semi-arriscados localizados nos nossos prédios e nos nossos bairros, uma cidade baseada na improvisação kitsch e numa arte do eufemismo — as casas de massagens contíguas a alojamentos locais, às rulotes de bifanas debaixo de viadutos, às oficinas e às actividades eróticas nas despensas dessas oficinas; as esteticistas, as massagistas, os proxenetas, as madames, os mecânicos, os patifes, etc. — um passeio que torna este livro um sucessor contemporâneo de Brassaï.
Abrangendo o arco temporal que se estende da memória colectiva da Expo 98 até aos anos da recuperação da troika, até ao presente, uma das coisas que torna este livro interessante é o modo como deixa a nu e nos confronta com uma série de suposições colectivas dos portugueses, nomeadamente, o modo como sabemos acolher tão bem os imigrantes.
Não existe um modo unívoco de descrever os acontecimentos aqui retratados, visto que o texto de É o que é existe ainda no modo do logro e da ambiguidade: a poética de maskirovka. O que realmente acontece nunca chega a ser evidente, nem para os próprios participantes ou sobretudo não para eles. É um jogo de espelhos e — não me admiraria que isso seja propositado da parte do autor — tem qualquer coisa de diálogo platónico sem o elenco socrático, desde logo o modo como explora uma averiguação entre verdade e aparências, reflexos projectados por bolas de espelhos e (bem a lembrar a alegoria da caverna) sombras projectadas por velas. A investigação de Diogo, que o leva ao gabinete de massagens, desloca-nos para uma relação estruturada no que (aparentemente) não é susceptível de erro, nem admite ilusão. A nudez; a satisfação corporal; a morte. De forma mais simples, este texto lida com o corpo e a cabeça de um homem de meia idade desesperadamente interessado em encontrar-se a si mesmo onde não há mais nada a esconder, onde a sordidez, a vulnerabilidade e a vergonha de si podem talvez mostrar-se sem subterfúgios. E no instante em que, despido, vulnerável, Diogo é mais verdadeiro, esse será talvez o auge da sua teatralidade.
De passagem, essa vontade de ser descoberto não deixa de encontrar correspondência formal num sem-número de alusões a obras com as quais o livro dialoga constantemente — a construção do texto mimetiza a pulsão de Diogo. A determinada altura, compreende-se que ele quer de facto descobrir-se a si mesmo como se fosse descoberto por outra pessoa.
(Exemplo e alegoria, veja-se o episódio da cortina, que nos mostra a percepção mais cínica da sua própria falência moral. Atrás da cortina nada há de nobre e interessante, apenas outra cortina de papelão e uns bocados de cotão que alguém se esqueceu de limpar. Descoberta dolorosa que estamos talvez condenados a fazer, se formos honestos — mas também uma falsa descoberta, ou não haveria espaço no mundo para objectos e pessoas especiais como este livro e o seu autor.)
É o que é é um texto assombrado e triste; e por vezes cómico, sombriamente cómico, em que todos os envolvidos se desgraçam, e em que são desconcertadas quaisquer ideias feitas sobre o poder de uns sobre outros. Para terminar, — e como comecei por dizer, — nada disto é sexy, nem edificante — mas a arte não tem de ser sexy, nem edificante; e a melhor arte não costuma ser qualquer destas coisas. É o que é e não quer ser diferente do que é: vive na consciência de que não pode sacrificar aquilo que é sem perder uma certa nobreza, sem se falsificar. Este livro tem essa virtude porque o seu autor também a tem.