Bónus
026.Nôs Txon
Marta Pinto Machado

Djaimilia Pereira de Almeida
Fragmento


Sobre a série Nôs Txon
(2021)

A imagem mostra um casal numa festa. Parece um casamento. A mulher veste uma blusa azul e uma saia florida. O homem, de camisa branca e gravata, agarra-a com paixão. Beijam-se para a fotografia. A mulher é a mãe da artista Marta Pinto Machado, o homem, o pai. Estão algures no Norte de Portugal, há muito tempo. “As fotografias não são factos”, diz a legenda. Marta Pinto Machado cresceu em Lordelo, no concelho de Guimarães. O que não diz a imagem de um beijo? Se não são factos, as fotografias também não são consolo. Na penumbra do salão, em segundo plano, os convidados olham-nos hostis, o jogo de luzes ilumina os amantes, revelando-os protagonistas joviais de uma cena cheia de bastidores.
        O trabalho fotográfico de Marta Pinto Machado vem operando atrás da cortina, trazendo para primeiro plano o que ficara na sombra. “Nôs Txon” (2019-2021), o nosso lugar, projecto centrado nas polaroids tiradas pela mãe de Marta, na juventude, era empregada de uma casa abastada, em França, é disso exemplo. A história conta-se depressa: a mãe de Marta costumava fotografar-se com uma Polaroid quando tinha um dia livre e ia para a escola, para registar a roupa que vestia e a antecipação feliz de ter tempo para si. A filha juntou às imagens as legendas em que, na sua voz, a mãe narra o quotidiano daqueles anos: as ordens do monsieur e da madame, o gradual desapossar da subjectividade, mulher cabo-verdiana desterrada na Europa, a “sodade”, enquanto forma de uma identidade dispersa e da pertença intermitente a um lugar.
        “Quando ia para a escola, eu era eu e não ‘la bonne’”, diz uma das legendas. São imagens de uma mulher arranjada para sair, em cores garridas, maquilhada. Perpassa o seu rosto a hesitação tímida de quem pergunta a si mesma “Estou bonita?”: “Gostava de me sentir bonita. Já bastava a frustração de ser uma ‘bonne’, dizia para mim própria, eu não vim para cá para ser a ‘bonne’ de ninguém”. Ou vemos instantâneos em que a rapariga surge fardada, acompanhados de histórias disruptivas: a vez em que o patrão a ensinou a disparar uma arma, os dias em que o monsieur a punha a fazer ditados. “Durante a tarde, depois da escola, às vezes o monsieur punha-me a fazer ditados em francês. Ele deitava-se na cama a ditar enquanto eu me ajoelhava no chão com o caderno em cima das pernas.”
        Não importam só as imagens, mas que a artista torne manifesta a história latente no corpo da mãe — aquilo que viu, ouviu, viveu — e, escrevendo e pensando sobre os seus autorretratos, a inscreva no repositório que, por regra, a excluiria. Impressiona encontrar no trabalho fotográfico da filha a mesma atenção vulnerável e contida que reconhecemos nas polaroids da mãe. Parece que Marta fotografa como a sua mãe se fotografou a si mesma, que há um olhar contínuo, de mãe para filha. Quase dá ideia de que foi Marta Pinto Machado que fotografou a mãe, não era ainda nascida, na casa do monsieur e da madame. Não sei que nome tem este contínuo. Talvez se chame amor.