Bónus
028.Monumentos e Anti-Monumentos

Humberto Brito
Ensaio

Planos de Pormenor, Nélio Conceição e Nuno Fonseca (eds.) 
V.N. Famalicão: Húmus, 2023 texto completo.


Considerarei lado a lado os livros de Felipe Russo e André Cepeda, Centro (2014) e Anti-Monumento (2019). Visto que estão os dois connosco e irão referir-se ao que fizeram com conhecimento de causa, posso dizer o mínimo possível sobre circunstâncias e intuitos. Interessa-me antes esquematizar alguns pontos de contacto, quer por semelhança como por contraste e até por simetria. Devo, no entanto, começar por enquadrá-los numa continuidade histórica nunca por eles reclamada, ou que quase de certeza não lhes passou pela cabeça em momento algum do processo. Há noventa anos, Walker Evans referiu-se às imagens de Atget por palavras que descrevem bem estes livros. “A sua toada geral”, escreveu Evans, “é uma compreensão lírica da rua, uma observação treinada da mesma, uma afeição especial pela pátina, um olho para o detalhe, coisas todas estas sobre as quais infunde uma poesia que não é «a poesia da rua» nem «a poesia de Paris», mas a projecção da pessoa de Atget.” É esta a qualidade destes livros. André Cepeda e Felipe Russo estão numa minoria entre os fotógrafos. São herdeiros punk de Atget. 
    O facto de terem percursos separados e nem sequer paralelos, excepto no sentido cronológico (Cepeda é apenas três anos mais velho), torna ainda mais interessante a comparação, comparação cujas cidades relevantes são, curiosamente, o Porto, São Paulo e Paris. 
   
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