Bónus
031.Nags Head
Joel Sternfeld

Humberto Brito

Resenha

Publicado na Quatro Cinco Um.
Imagens no site do autor.
Steidl, 2024
Há gente que fotografa a cores. Há gente, menos gente, que fotografa a preto e branco; e há gente, ainda menos gente, que fotografa a esquemas de cores. A inferioridade numérica sugere uma doença rara, uma espécie de febre dos olhos que nunca vi diagnosticada. Até hoje, por Joel Sternfeld. Pese embora a cor, a forma, as funções visuais se processem no lobo occipital, esta prática, ou antes, esta ‘condição’ leva a um sobreaqueci-mento do lobo frontal, onde se localiza a resolução de problemas, um latejar obsessivo-compulsivo não muito diferente do exercício da escrita propriamente literária. Isto não diz Sternfeld. É uma descrição empírica, baseada na memória de uma monomania cromática, de que só me curei por via de uma medicação autoprescrita. (Caso alguém necessite: Kodak Tri-X em Xtol 1+1, sempre assim durante dois anos.) 
        A explicação dele surge no posfácio de Nags Head, livro cuja questão da cor o torna uma prequela do monumental American Prospects (1987). “Sempre que via na paisagem um fenómeno cromático de alguma forma coincidente com um exercício tipo [Josef] Albers sobre as propriedades perceptuais da cor, fazia uma fotografia.” (86) Este é já um relato da fase exuberante do contágio a qual se segue não do uso da cor em si mesmo, mas da cor enquanto tema. Reparem, é uma doença bela e inofensiva, excepto para o paciente, que dá consigo a interrogar-se “quais são os princípios estéticos da fotografia a cor, os seus usos mais elevados? Com o tempo,” admite Sterfeld, “cheguei a uma formulação: numa fotografia a cores bem sucedida, a definição ou o significado da imagem emerge, de algum modo, do uso da cor”, nisso “reside o punctum da imagem.” (85) Mas esta formulação era insuficiente, “não resolvia a questão da estrutura cromática global da imagem”, então, a gente põe-se a estudar teoria da cor, as lições de Albers, Itten, Klee, Kandinsky, caramba, “até recorri a Goethe e Steiner” (86). É quando se perde contacto com o fluxo do presente: a paisagem torna-se mental, perde-se a exterioridade para os esquemas de cor, e a cegueira (a cegueira da cor) produz imagens. E que imagens.
       Folheando Nags Head, constata-se uma inteligência das imagens relativamente ao texto, isto é, o tema da cor, ou a cor enquanto tema, não tem talvez o peso que se lhe atribui. As imagens superam-no e não se esgotam nele. Mas isso ser tema é justamente o punctum do livro: uma forma discreta de coragem, a de apostar a vida em fazer uma coisa ininteligível para a maioria, por exemplo, perceber como é que se fotografa, não, pior ainda, como é que se , a cores. 
       Alguns anos mais tarde, este género de coragem viria a ser testado pelos próprios constrangimentos do processo e da indústria, quando, vivendo numa Volkswagen como bolseiro, enquanto fazia as imagens de American Prospects, Sternfeld buscou por “cenários [scenes] com significado para a minha ideia da América e propriedades cromáticas que permitissem unir forma e contexto” (92). O optimismo! Ou, diria um cínico, a arrogância. Percorrer um continente na suposição da existência de tais cenários, o risco de desperdiçar a vida em nome de uma quimera. “Só muito de vez em quando podia enviar a película por FedEx para ser revelada em Nova Iorque, havia muitas vezes intervalos de dois ou três meses até ver as provas de contacto” e, de resto, “Não tinha dinheiro para imprimir tudo.” 
        Gostamos de pensar em quem assim progride, às cegas e sem validação, seja ele ou ela fotógrafa ou poeta ou romancista, como figuras heróicas, invulneráveis à dúvida, indiferentes à saciedade e à sociedade. Mas a dúvida é constitutiva. A consciência do risco edifica, em parte, porque queima. “Dava comigo muitas vezes mesmo a pensar que era um fracasso, que me desgraçava.” E projectava-se falhado, fantasiando-se a terminar cozinheiro de café em Fort Wayne, Indiana, “E porquê Fort Wayne? Soava-me bem: nunca lá tinha estado. Seria um desconhecido de parte incerta, a autêntica anomia” (idem).
       Acordo em 2024 e ninguém se projecta já desconhecido, de parte incerta. A auto-definição é o género literário do presente e cabe em 140 caracteres. Pergunto-me onde foi parar a auto-indefinição, a aventura inerente, a anomia de si: onde foram parar todos os cães vadios? onde foi parar a estirpe de Sternfeld, apostando a vida em ser anónimo e obscuro no presente, ou em ser anónimo e obscuro para sempre, virando hambúrgueres em Fort Wayne. “Hoje”, nas palavras do mestre Moriyama, “todos os cães são de estimação”.