032.A Woman I Once Knew
Rosalind Fox Solomon
Djaimilia Pereira de Almeida
Fragmento
Publicado no Observador.
MACK, 2024
Folheio a obra-prima A Woman I Once Knew, da fotógrafa americana Rosalind Fox Solomon. Há uns anos fiquei maravilhada com o seu livro Liberty Theater, no qual documentava as tensões da era Jim Crow com um sentido de ironia e crueza dilacerante. Recordo, nesse conjunto, uma mulher em Chattanooga, Tennessee, agarrada ao rosto, parecendo chorar, numa sala forrada com papel de parede, rodeada de bonecas de porcelana.
Há poucas palavras para a força e o tom do texto em que Rosalind Fox Solomon narra a sua infância, os momentos mais importantes da vida, as suas amarguras e alegrias. Com crueza brutal, começa por declarar “I am from Mother and Daddy’s martinis”, (…) “I am from Daddy spanking me” “I am from grandmother’s love”.
Livro final, Rosalind morreria pouco depois de o publicar, intercala a sua biografia com autorretratos ao longo da vida e sobretudo na velhice, quase todos nus.
Nunca tinha visto uma mulher de idade nua assim: muito menos olhando para si mesma assim e deixando-me vê-la como se viu, de pernas e braços abertos, olhando-me enquanto se olha.
É um livro final, porque apenas no fim se consegue a coragem de Rosalind e, após a sua coragem, não há muito que reste. Depois de um livro destes, a morte da autora.
E, no entanto, pergunto-me, folheando o livro pela sexta vez, enquanto mais um fascista fala na televisão, (vejo-o pelo canto do olho), que verão neste livro olhos fascistas senão pornografia? O Instagram, por exemplo, censurou várias das suas imagens quando a editora, há uns meses, as quis divulgar. Não escolhemos as mãos que tocam os nossos livros.
Falam pornograficamente e vêem pornografia em tudo. Talvez nunca tenham imaginado que as suas avós são ou foram corpos de desejo, um imaginário secreto.
Daí o acto extremo que é a inteira indiferença de Rosalind Fox Solomon ao público, indiferença ao que vem depois do livro, às mãos que o tocarão, ao nosso olhar: no mesmo gesto, somos convocados e excluídos.
Rosalind fotografa os seus pés nus, marcados pelos anos, as mãos, as artroses, as feridas, as cicatrizes, o sexo. Posa para si própria, observa-se a fundo, ou brinca com a sua imagem, com o corpo, com a cara, faz caretas, macacadas, chora, goza.
Num quarto de hotel, ou na rua, fotografa-se nua junto a um escadote ou ao lado da televisão que passa anúncios a jóias, nas televendas (é essa a capa do livro).
Que idade terá a mulher das fotografias? Oitenta, oitenta e cinco anos. Rosalind Fox Solomon nasceu em 1930.
Passaria anos a documentar o Sul segregado. Viajou pela África do Sul, Irlanda do Norte e outros lugares. Viveu quase cem anos.
Ela conta como tomou comprimidos para emagrecer toda a sua juventude, como o pai a achava gorda e lhe batia. Às vezes, o livro parece uma vingança contra o sofrimento da vida. Outra vezes, um ritual contra o medo, venha ele de onde vier.
Rosalind fotografa-se. O que terão visto os seus olhos antes de verem o seu corpo nu, octogenário? Que vemos nós, através deles?
A Woman I Once Knew é um livro que nenhuma censura deixaria passar. Um livro que obrigaria a apresentações quinzenais na esquadra. Um livro para amanhã.