033.Re-Visions
Paulo Catrica, Carlos Lobo, Sebastiano Raimondo
Humberto Brito
Folha de sala
Galeria NO-NO
Lisboa, 2025
Todas as exposições têm ideias a seu próprio respeito mas não são frequentes aquelas cujas ideias são boas ideias, ou ideias cuja importância exceda o âmbito da exposição.
Título cuja ambivalência pode não ser evidente para todos os visitantes, este conjunto de obras autodescreve-se como uma série de revisões, Re-visions. Revisões, porquê? Antes de mais e num sentido trivial, por não ser a sua estreia pública. (Todos estes trabalhos tinham sido mostrados antes.) Em segundo lugar, dado que nunca as vimos neste espaço e em diálogo, o conjunto sugere que re-ver, ou ver de novo, é uma nova visão, de certa forma, um modo de ver pela primeira vez. Já que algumas destas imagens são inéditas, trazidas a público pelo acto da revisão, isso é aliás factual. O que nos traz ao cerne da questão: a revisão como gesto especificamente fotográfico. Os conjuntos de imagens aqui expostos organizam-se aqui em torno de um pensamento sobre a fotografia que desconcerta as suas definições tradicionais. Estamos habituados a descrevê-la como uma arte da visão. Cada um destes conjuntos de imagens exemplifica porém uma reflexão sobre a fotografia enquanto prática da re-visão. Nada de novo sob o sol, como insistia Ghirri, o que o fotografo vê é, sempre, já, em cada um destes exemplos, algo que regressa, um reconhecimento, um fantasma, uma vaga memória, um tom familiar.
Carlos Lobo mostra-nos imagens do Japão. Feitas em Tóquio e Osaka na sequência de uma catátrofe natural (o tsunami de 2011 na origem do desastre nuclear de Fukushima Daiichi), a sua primeira formulação, exposta algumas vezes e publicada em monografia (The Idea of Silence, 2011), explorava “a ideia poética do silêncio e da calma após a tempestade, e se e de que modo a fotografia é capaz de retratar uma paisagem traumática sem ser exploradora”. E todavia nelas não se reconhecem senão os fantasmas da fotografia neo-topográfica norte-americana e europeia, em especial, a busca de um silêncio que evoca e acorda, em referência a um Japão ferido, elegíaco, as paisagens interiores de Robert Adams.
Paisagens interiores são o que define, igualmente, a obra de Sebastiano Raimondo, que aqui reúne — revê — reconfigura — imagens de três trabalhos. A saber, 1. ‘Le Sirene Dentro’ (‘As Sereias Dentro’, Nápoles, 2014-15); 2. ‘Custodire Soglie’ (‘Cuidar Limiares’, Palermo, 2009-2018); e 3. ‘Reduce-re’ (‘Re-regresso’, Sicília, 2007-2018, série com a qual venceu Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira 2022). A primeira emerge da experiência de (re)ver uma cidade (Palermo) através de outra cidade (Nápoles), numa “sequência cuja génese se prende com encontros, leituras, estudos e histórias imaginárias em que vi reflectidas coincidências com os meus interesses e vida real”. Se Le Sirene Dentro sugere uma ideia de fotografia enquanto visão de si mesmo através do contacto com o presente, não tanto uma auto-análise mas uma auto-etnografia, não se trata porém de uma projecção romântica do ‘eu’. A prioridade está sempre numa compreensão metodologicamente desinibida, ou lírica, daquilo que está diante dos olhos do fotógrafo, cuja mediação por molduras de enquadramento (portas, janelas, etc.) é tematizada em ‘Custodire Soglie’. Apontando para uma série de limiares, esta série reflecte sobre a sua epistemologia porosa, onírica, que vamos reencontrar em ‘Reduce-re’, em que a partir da geografia natal, as Madonie, na Sicília, e da sua codificação hierática e mitológica, Raimondo imagina a fotografia como um constante, imagem a imagem, gesto de regresso a casa.
Regresso por vezes tardio e inopinado, dissociado até do acto fotográfico. As imagens que formam ‘La ricerca di un titolo’ [‘A busca por um título’] (1983-2013) nascem de um reencontro com negativos quase (senão mesmo) esquecidos, impressos por volta de 2018. A partir de um reencontro fortuito com o arquivo, a revisão destas imagens suscita uma cadeia de leituras e associações mais ou menos indisciplinadas (no sentido em que excedem qualquer metodologia estável). Associações mediante as quais o autor revê afinidades electivas através das quais elabora um certo tipo de ficção: a de re-constituir, ou ‘restaurar’, a partir de fragmentos, o resíduo de uma cidade na memória pessoal e colectiva “Como resíduos de uma dupla arqueologia, do assunto fotografado e da tecnologia analógica,” explica Paulo Catrica, “estas fotografias pretendem operar como uma elipse imperfeita de Roma.”
Este conjunto de séries ensaia portanto um breve manifesto sobre a fotografia consciente de si mesma: a fotografia entendida como revisão e como re-visão, se me é permitido dizê-lo desta maneira. A fotografia que, empenhada em compreender os seus próprios processos e estratégias, é, através do contacto com o não-eu, um persistente regresso, um interminável reencontro — do fotógrafo consigo mesmo, da fotografia consigo própria, — para o qual a prioridade do mundo sobre o fotógrafo é condição sine qua non.