Bónus
036.Escrever por gestos


Humberto Brito
Ensaio

Excerto. 
Lido no Workshop de Filosofia e Literatura, 2025
Publicado em Compendium 8, 2026. Texto completo

Nos primeiros parágrafos da Metamorfose, Kafka procede por ostensão. Começa por apontar na direcção de uma figura humana animalizada (o Gregor-Ungeziefer) e logo a seguir para outra: a senhora coberta de peles, numa bonita moldura. Na sequência de apontar para esta moldura, aponta imediatamente para outra, a moldura da janela. “O olhar de Gregor dirigiu-se então para a janela, e o tempo turvo… deixou-o melancólico” (67-68). Ainda não é evidente a função da janela enquanto moldura. A pouco e pouco, a visão da rua, progressivamente difusa, revelar-se-á no entanto uma imagem indirecta da gradual desintegração da forma humana. A janela é assim uma moldura em torno de um retrato (digamos, psicológico) de Gregor, um retrato da sua degenerescência. Vê-lo-emos mais à frente emoldurado “contra a janela, claramente apenas por uma qualquer reminiscência da antiga sensação de liberdade que olhar pela janela antigamente lhe trazia.” Mas de onde antes se viam os contornos definidos de um hospital em frente (83), vê-se agora “apenas um deserto onde o céu cinzento e a terra cinzenta se uniam indistintamente.” (99) A progressiva perda da visão indicada pela progressiva perda de contornos da paisagem sugere uma dissolução do ‘eu’ que respondia pelo nome ‘Gregor’. Por falar no edifício do hospital, para dentro do qual nada se vê, importa também olhar para o que se vê enquanto este ainda “podia ver-se nitidamente”. “Entretanto o dia clareara bastante; do outro lado da rua podia ver-se nitidamente um segmento do edifício em frente, interminável, cinzento-escuro — era um hospital —, com as suas janelas regulares que quebravam severamente a fachada” (82)
        O facto de que se vê “um segmento” apenas confirma a função da janela como moldura sobre o exterior, ou meio de enquadramento. Quanto ao edifício do hospital, as suas “janelas regulares” e opacidade rimam por sua vez com a opacidade e a morfologia do próprio Gregor, cuja “barriga … castanha” é “seccionada por segmentos” (67). O hospital em frente é nada menos que um mega-Gregor. A visão recortada pela janela é um close-up de um ‘monstruoso insecto’. Gregor, como o hospital, só se vê por fora. É agora um ente opaco, ilegível para lá da superfície. Nunca foi aliás de outro modo. A metamorfose apenas põe a descoberto uma assimetria preexistente. O estado de alienação que confunde com probidade deriva, em parte, da falta de reconhecimento pela família da sua interioridade idiossincrática, quer dizer, de uma subjectividade omissa cujos motivos e aspirações contrastavam com a função de filio familias.
        Se se admitir que a visão do hospital através da janela é um retrato de Gregor, é bastante flagrante o padrão ostensivo que comecei por identificar. Kafka aponta para um retrato de Gregor (o hospital) e, linhas abaixo, aponta para outro (a imagem do jovem tenente Samsa). Primeiro, retrato, janela — agora, janela, retrato. Sintomaticamente, este gesto pergunta: qual destes retratos é mais parecido com o actual Gregor? Kafka está a fazer aquilo a que os fotógrafos chamam sequenciar imagens. Testa imagens ao lado de imagens para suscitar uma leitura. À falta de fotografias em casa dos Samsa, Kafka fornece um álbum de família, excepto que o método de sequenciar sabota a forma do álbum de família enquanto género. O princípio de construção deste género define-se quase sempre pela repressão. A sequenciação afasta da consciência um sem-número de zangas e reveses, numa confusão feliz entre memória e ficção, estruturada em torno de convenções acerca do que é a harmonia familiar. O emparelhamento de imagens testado por Kafka suscita perguntas cuja resposta é incompatível com tais convenções, se é que existe resposta.

Texto completo