038.Aos estudantes de Teoria
Humberto Brito
Carta aberta
10 de Fevereiro de 2026
Caras e caros estudantes,
Sejam bem-vindos à minha cadeira!
Esta mensagem serve de prefácio a um semestre que espero que seja excelente para todos.
Ao longo dos próximos dias, irei disponibilizar uma primeira lista de leituras. O tópico central deste semestre será a close reading em sentido lato, ou a leitura próxima do texto enquanto método crítico fundamental. O objectivo não é descrever uma técnica mas problematizar uma série de questões principais e adjacentes que decorrem da consideração da leitura enquanto prática avançada e consciente dos seus próprios processos. (As leituras cuja língua original não for o português serão fornecidas, sempre que possível, em tradução, mas preparem-se para ler alguns textos em inglês. Sintam-se à vontade para consultar traduções noutras línguas com as quais se sintam confortáveis. Visto que o campo da Teoria está insuficientemente traduzido para a nossa língua, não existe boa alternativa.)
Uma palavra sobre o que vamos fazer este semestre.
Em 2026, estima-se que 85% dos estudantes sejam utilizadores frequentes de IA, de modo geral, em substituição da leitura e como facilitadora da escrita. Se esta alteração cultural levanta desafios existenciais à Universidade, tem implicações muito particulares no nosso campo de estudos. A sua própria extinção é um tema habitual da Teoria. Raras vezes, porém, esse tema se confunde com problemas da actualidade.
Sucede que a relação com a linguagem não é idêntica noutras áreas à relação da Teoria e dos Estudos Literários com a linguagem, ou antes, estas não podem subordinar-se à integração de novas práticas e usos sem severo e drástico prejuízo. Por um lado, a sua generalização e a sua normalização institucional promovem (sejamos francos) a substituição da leitura e da escrita, da leitura enquanto escrita, ou da escrita enquanto modalidade específica da leitura avançada, pela pura e quase sempre acrítica imitação de linguagem e de pensamento.
A acelerada substituição da leitura e da escrita pelo recurso a atalhos, o abandono da leitura humana empenhada em explicitar os seus próprios processos e critérios de rigor, já para não dizer a sua experiência idiossincrática, conduzirá, a médio prazo, à extinção da Teoria e dos Estudos Literários. E não porque as novas práticas de «leitura» ou «processamento» arrastem consigo significativos ganhos cognitivos (muito pelo contrário) mas por uma razão mais prática e sinistra. Por generalizarem a ilusão da futilidade da leitura; e portanto a ilusão da futilidade do estudo da Literatura.
Ilusão que não é mais do que a consequência natural da inteligência artificial, que, em rigor, não sabe ler. A sua insusceptibilidade à ironia, à nuance, ao tropo, à contingência, à idiossincrasia, ao contexto, ao tom, à estrutura, etc., assim como a sua (documentadíssima) vulnerabilidade a erros de palmatória, vêm infiltrando o trabalho e o próprio pensamento dos estudantes de Literatura. Tentados pela sedução dos «resultados», abdicam de um processo que vai muito para lá do significado (seja isso o que for) de qualquer obra: a compreensão de si mesmos enquanto leitores autónomos (adultos, indivíduos, cidadãos, filhos, pais, vizinhos) através da leitura atenta às tensões e às dificuldades características da linguagem literária e da forma literária.
Em face da sua possível — provável — extinção, a Teoria e o estudo da Literatura devem ser, para os estudantes do presente, aquilo que era para qualquer país civilizado, segundo Wordsworth, a poesia da linguagem corrente: uma promessa. O tema deste semestre será a close reading enquanto instrumento desta promessa.
Como comecei por dizer, entendê-la-emos em sentido amplo enquanto uma prática transversal nos estudos literários, sem a circunscrevermos ao formalismo anglófono. Examinaremos as suas origens, virtudes e limitações a partir de uma série de exemplos teóricos, críticos e literários; assim como as suas aspirações metodológicas. Exploraremos ainda a intuição segundo a qual a close reading é uma leitura que é em si mesma já uma escrita.
Na primeira aula, gostaria de vos conhecer e conversar um pouco sobre alguns dos temas para o semestre. Falarei também sobre os objectivos, as expectativas e os modos de avaliação.
Possivelmente, faremos um breve exercício de close reading, para o qual não precisam de preparar-se.
Com os sinceros votos de um excelente semestre, que prevejo que seja estimulante e divertido,
H.