039.Prefácio a Lyrical Ballads, William Wordsworth
trad. Humberto Brito
Excerto
1880 / Fevereiro de 2026
“<1> O primeiro volume destes Poemas já foi submetido a um exame geral. Foi publicado como experiência que, esperava eu, poderia ser de alguma utilidade para verificar até que ponto, adaptando metricamente uma selecção da linguagem real dos homens num estado de sensação vívida, podem aquele tipo de prazer e aquela quantidade de prazer ser transmitidos, ou pode razoavelmente um poeta tentar transmiti-los.
<2> Formara uma nada má estimativa do provável efeito destes poemas: queria acreditar que aqueles que ficassem satisfeitos com eles os leriam com mais do que o prazer comum; e, por outro lado, estava bem ciente de que por aqueles que não gostassem deles, seriam lidos com mais do que o comum desagrado. O resultado diferiu das minhas expectativas apenas nisto, no facto de ter agradado a um número de pessoas maior do que arriscara esperar.
<3> Vários dos meus Amigos anseiam pelo sucesso destes Poemas, crendo que se se concretizarem de facto os pontos de vista com que os compus, resultará uma [nova] classe de Poesia, apta a interessar a humanidade de forma permanente, e não sem importância no que toca à qualidade e multiplicidade das suas relações morais. E por esta razão aconselharam-me a aditar uma defesa sistemática da teoria sobre a qual os Poemas foram escritos. Mas não estava inclinado a empreender a tarefa, sabendo que, nessa altura, o Leitor olharia com frieza os meus argumentos, dada a possível suspeita de que me moveria acima de tudo a esperança egoísta e tola de obter aprovação para estes poemas particulares por via do argumento. Tarefa em relação à qual eu estava ainda mais relutante porque apresentar adequadamente as opiniões e a sua devida argumentação exigem um espaço muito maior que um prefácio. Pois, para tratar o assunto com a clareza e coerência que merece, seria necessário uma descrição completa do estado actual do gosto público neste país, e determinar até que ponto é saudável ou degenerado; o que, uma vez mais, não poderia determinar-se sem apontar de que forma a linguagem e a mente humana agem e reagem uma sobre a outra, e sem descrever as transformações [revolutions], não só da literatura, mas também da própria sociedade. Portanto, frequentemente, declinei por completo entrar nesta defesa; mas sou sensível a que haveria algo de impróprio em obstruir abruptamente o Público, sem algumas palavras de introdução, com Poemas tão materialmente diferentes daqueles aos quais é actualmente concedida a aprovação geral.
<4> Supõe-se que, pelo acto de escrever em verso, um Autor entra num compromisso formal nos termos do qual satisfará certos conhecidos hábitos de associação; supõe-se que deste modo não apenas avisa o Leitor de que encontrará no seu livro certas classes de ideias e expressões, mas que outras foram cuidadosamente excluídas. Este expoente ou símbolo proposto pela linguagem métrica deve, em diferentes épocas da literatura, ter suscitado expectativas muito diferentes: por exemplo, na era de Catulo, Terêncio e Lucrécio, e na de Estácio ou Claudiano; e no nosso próprio país, na era de Shakespeare e Beaumont e Fletcher, e na de Donne e Cowley, ou Dryden, ou Pope. Não me encarregarei de determinar o significado exacto da promessa que, pelo acto de escrever em verso, um Autor nos dias de hoje faz ao seu leitor: mas irá sem dúvida parecer a muitas pessoas que eu não cumpri os termos de um compromisso assim contraído voluntariamente. Aqueles que se habituaram ao espalhafato e à fraseologia inane de muitos escritores modernos, se persistirem em ler este livro até ao seu termo, terão, sem dúvida, de lutar frequentemente com sentimentos de estranheza e constrangimento: olharão em redor à procura de poesia e serão levados a perguntar por que espécie de cortesia se pode permitir que estas tentativas assumam esse título. Espero, portanto, que o leitor não me censure por tentar dizer o que me propus a fazer; e também (tanto quanto os limites de um prefácio permitem) explicar algumas das principais razões que determinaram a escolha do meu propósito: para que, pelo menos, seja poupado a qualquer sensação desagradável de desapontamento, e para que eu mesmo fique protegido de uma das acusações possivelmente mais desonrosas contra um Autor, a saber, a da indolência que o impede de tentar discernir qual o seu dever, ou, sabendo que dever é esse, o impede de o cumprir.”
(...)