042.O estado mestiço do pensamento
Djaimilia Pereira de Almeida
Nota
Publicado na Serrote (2023)
22 de Fevereiro de 2026
A ambiguidade não é uma inclinação do meu pensamento. A ambiguidade é a minha raça. Não sou preta. Não sou branca. O meu mundo é cinza. A minha cara é cinza. A minha pele é cinza. A minha raça é cinza. Se o mundo oscila entre dois pólos, estou entre os pólos, não cidadã bipolar, mas meio-termo entre forças. Num mundo a preto-e-branco, não tenho lugar no mundo. Um mundo a preto-e-branco nega o meu lugar.
A condição das coisas parece ser a de terem uma ou outra cor, a de serem uma coisa ou outra. Que fazer deste modo pardacento de ver o mundo, se o vejo assim à minha semelhança? Serei “mulata”, ou traidora? Será que engano a um lado e ao outro, à vez, e me mascaro, ora escura, ora clara, ora preta, ora branca, conforme a conveniência? Será que a minha condição é a dissimulação, que não navego se não no engano, junto dos negros, quase negra, junto dos brancos, aculturada, ainda que exótica? Que fazer, se nem uns nem outros me aceitam como parte da tribo — branca não serei nunca, negra a sério muito menos?
A palavra “mulata” foi banida. Mas poderei, ainda, perguntar: o que é (mesmo entre aspas) ser “mulata”? Poderei perguntar, que lugar é o meu, que sou coisa que não pode ser pronunciada, eu a quem a palavra que me ensinaram que me designava se tornou palavra proibida?
Recordo há anos, era eu secretária de um conselho de académicos. Um deles fez piada, falando com os outros, para me espetar com uma agulha: “e se todos passarmos a fazer livros sobre miscigenação?” A minha função na reunião é escrever a acta. E repito por escrito, enojada, “e se todos passarmos a fazer livros sobre miscigenação?” “e se todos passarmos a fazer livros sobre miscigenação?” “e se todos passarmos a fazer livros sobre miscigenação?” “e se todos passarmos a fazer livros sobre miscigenação?” Repito a frase na acta até miscigenação ser dentro de mim a coisa porca que o professor doutor queria que eu ouvisse. Lembro-me doutro momento, num livro: quando li que todo o mulato era fruto de uma violação.
E pensei no meu pai e na minha mãe a nadarem nus na praia da Chicala, em Luanda, numa foto que vi em menina, recordo o meu pai a dizer-me que não queria ter sido pai tão cedo, “a tua mãe sentou-se em cima de mim e violou-me.” Outro momento ainda, quando uma escritora africana célebre disse a um jornal qualquer coisa como “sim, sabemos o que é o negro, sabemos o lado do negro. Sabemos o que é o branco, sabemos o lado do branco. Mas o mulato, que género de coisa é o mulato? Que ser é este?” Depois, falei com uma amiga mestiça que tinha lido a escritora como eu li. E ela disse-me que a escritora tinha posto o dedo na ferida, que o “mulato” era mesmo um mistério.
Ou os “mulatos” que se acham superiores aos negros, e fui conhecendo ao longo da vida. “Mulatos” filhos de “mulatos” que tratavam os negros como “essa pretalhada” e garantiam que “não temos nada a ver com essa pretalhada”. Uma imagem: “a mistura de raças é comunismo”, diz o cartaz empunhado pelo supremacista branco numa manifestação em Little Rock, Arkansas, em 1959.
Ou a história contada na canção “Goat Head” pela cantora Brittany Howard, quando ela diz que uma vez alguém deixou a cabeça de uma cabra dentro da bagageira do carro do pai, homem negro, em sinal do ódio à sua união com a sua mãe branca.
“See, tomatoes are green
And cotton is white
My heroes are black
So why God got blue eyes?
My daddy, he stayed
My grandmama's a maid
My mama was brave
To take me outside
'Cause mama is white
And daddy is black
When I first got made
Guess I made these folks mad
See, I know my colors, see
But what I wanna know is
Who slashed my dad's tires and put a goat head in the back?
I guess I wasn't supposed to know that, too bad
I guess I'm not supposed to mind 'cause I'm brown, I'm not black
But who said that?
See, I'm black, I'm not white
But I'm that, nah, nah, I'm this, right?
I'm one drop of three-fifths, right?
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Goat head in the back
Acontece-me com frequência. Começo a ler um livro e chego a uma frase que me trava. “A nostalgia ou o arrependimento podiam matar-te num sítio como a América, por isso eles apostaram apenas no dia de amanhã.” É Saidiya Hartman, em Perder a mãe. Refere-se aos avós, naturais de Curaçau, no Caribe. “Quando se tornou claro que nunca regressariam, os meus avós erigiram uma parede de meias-verdades e silêncio entre eles mesmos e o passado.” Fiquei suspensa na ideia de haver lugares onde a nostalgia nos pode matar.
Reconheço na nostalgia uma máquina de propaganda, que serve o ressentimento. Saidiya fala de outra coisa. Há lugares nos quais só sobreviveremos se mergulharmos completamente, esquecendo o que abandonámos e quem fomos antes. Pergunto-me se o outro lado de todo o sonho não é sempre uma parede de silêncio, na qual projectamos, como num teatro de sombras, a ficção exigida pela nossa sobrevivência. Será que lançarmo-nos no sonho não exige necessariamente uma morte?
Os manuais de direitos humanos mascaram esta morte com designações nada poéticas como “integração” ou “inclusão”. São formas eufemísticas de nos referirmos a dolorosas transformações humanas. Para não morrer de nostalgia, entrego-me à morte. Entendo agora que, se a migração implica uma forma de morte, caminhamos, nas nossas vidas, para essa condição migrante de auto-esquecimento. Sou, ao mesmo tempo, a avó que escondeu a verdade, a filha que nunca fez perguntas e a neta que investiga. Sobreviver à nossa história é parecido com sobreviver numa cidade implacável.
A mulher negra que me diz que só não me sei pentear porque não sou negra de verdade. Penso: será que é assim? Será que esse drama todo é drama de raça mista, de bicho suspeito, de gata de rua? Outra história: o orgulho do meu avô assimilado pela minha cor de pele, mais clara do que a sua, sua neta-troféu. “See, I know my colors, see.”
Outra ainda: o meu primo negro, somos crianças, estamos a comer pêssegos no bairro de lata depois do jantar, sentados no chão de betão, meu primo comigo ao pôr-do-sol, a ver que os pêlos dos meus braços alouram com o sol, e a dizer-me e a odiar-se enquanto o dizia, temos doze anos: “se os meus pêlos ficassem louros como os teus, isso é que era.” “See, I know my colors, see.” Meu primo a enlouquecer depois de se apaixonar, tem vinte e dois anos, seu sonho era ter uma mulher clara, sua loucura é viver na barraca sufocado nos sonhos do seu pai assimilado, seu sonho era ser branco, berra “não tenho nada a ver com essa pretalhada”, enquanto a polícia o leva para a esquadra.
Outra imagem: a noite de Carnaval do Rio da minha infância, em que ficava a ver o desfile no Sambódromo pela televisão para ver como eram as “mulatas" depois de crescidas. E há uma mulher mestiça em nu integral, que samba na minha memória, com o corpo iluminado com glitter. E eu menina, sozinha na sala, vejo as suas mamas coloridas, o corpo gingando, o cabelo crespo armado, estou entre o desejo por ela e o desejo de ser como ela, e penso que aquele corpo “mulato” a dançar no Sambódromo, isso é que é o paraíso. “See, I know my colors, see.” “See, I know my colors, see.” “See, I know my colors, see.”
Banimos a “mulata”. E então penso que talvez o que foi proibido seja quem eu sou, e que o mundo me exorta a ser uma ou outra coisa não me deixando ser coisa nenhuma. Todas as designações disponíveis ou cruzam linhas vermelhas ou são expressões manchadas pela violência ou foram canceladas: “raça mista” (como nos antigos bilhetes de identidade coloniais)? Mestiça? “Parda”? “Mula”? Estará o problema não na palavra “mulata”, que abomino, mas no facto de que o mundo me proibiu, no facto de que não há lugar no mundo para a (minha) raça ambígua? E, então, que serei, se é que sou ainda alguma coisa? Haverá alguma coisa no galope das perguntas que é recusa de aceitar de bom grado abraçar um dos lados da história? Porque é na hesitação que encontro o conforto? Será porque sou fruto da hesitação, fruto do negro a tornar-se branco, do branco a misturar-se com a negra? Será porque o meu modo de viver é com um pé de cada lado? Será a hesitação a condição mestiça da ansiedade ou a vantagem que vem da indecidibilidade da mistura? A ambiguidade, o estado mestiço do pensamento? E o mundo em que vivemos a era pós-mestiçagem, ou a era do ódio ao cinza, ou a era ex-mulata?
Não sei se deliro, mas vou da suspeita contra a ambiguidade de direcção, de pensamento, à suspeita contra a raça ambígua. “See, I know my colors, see.” Vou da suspeita contra o cinza à suspeita contra a minha cor cinza. Assim como da ambiguidade no meu pensamento vou em linha directa até à ambiguidade da minha raça. E não sei dizer quanto do meu pensamento não é um modo mestiço de ver o mundo, modo de ver o mundo próprio de quem está entre mundos, entre raças, próprio de quem está entre uma coisa e outra. Encaro a rasura da ambiguidade do presente como uma expansão da minha ilicitude, antes confinada a geografias de história nefasta, onde a mistura de raças foi até há pouco tempo proibida. No mundo em que vivemos, não há lugar para ambiguidades.
Não sou mais “mulata”, porque a “mulata” acabou, mas haverá no mundo lugar onde a minha condição seja insuspeita? Lugar onde este estar no meio não desperte desconfiança?
Vou da pergunta ao ódio por esse estar no meio, vou do ódio à palavra “mulata” ao ódio à minha pele. E visto o meu cinza como a uma máscara, um artifício. Será a raça ambígua, como a pessoa indecidível, um instrumento da vigarice? Haverá “mulata” no mundo que não seja vigarista? De cabeça à roda, pergunto-me a quem quererei enganar, se não dei conta de enganar ninguém — ou serei eu o engano? Será a vigarice não aquilo que a “mulata” faz, mas aquilo que ela é, coisa misturada e impura, coisa que atrapalha e confunde, nem carne nem peixe, banha da cobra, gato vendido por lebre.
Se o ódio à ambiguidade é ódio à minha pele, que dizer de que talvez a minha deambulação pelo mundo seja facilitada pela minha tez mais clara do que, por exemplo, a da minha mãe? Se o ódio à ambiguidade é ódio à minha pele, que dizer de que na escala do ódio a minha tez mais clara me facilita a vida? Mas facilitará? Ou o ódio à ambiguidade é ódio ao que na natureza e nas coisas é impuro, o ódio à dupla em toda a cidadã cinza, o ódio ao fazer-de-conta intrínseco à minha posição ambígua, mistura de branco com preto, entre pai e mãe, entre dois mundos?
A ambiguidade, a ambivalência, enquanto condição racial, enquanto expressão intelectual da mestiçagem, são suspeitas assim como a ambiguidade, a ambivalência de pensamento, são suspeitas. O problema está no modo como o mundo de hoje aboliu o meio-termo. A cruzada contra o cinza é a cruzada contra a minha pele. A cruzada contra o cinza é o desapossamento do lugar da pele cinza no mundo. Acabou a ambiguidade, persiga-se a ambivalência, tudo é ou contra ou a favor, ou uma coisa ou outra, “acredito na bipolarização radical”, leio da boca da activista negra, “a verdade nasce do conflito entre extremos”, assevera-me ao almoço o ideólogo nacionalista, acabou o meio-termo, declarou o nosso tempo. Acabou a “mulata”. Neste mundo pós-“mulata”, em que amo viver, serei, ainda o quê? Branca não sou nem por sombras. Digo-me negra. Sou ex-mulata. Mas serão as ex-mulatas eternas gatas-borralheiras?