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044.Visitar Amigos, de Luísa Costa Gomes

Humberto Brito
Recensão (excerto)
Publicado na Colóquio/Letras 221 (330-332)
30 de Março de 2026


Num catálogo de figuras humanas e não humanas que inclui personagens públicas, fantasmas biográficos, pessoas ficcionais de espessura variável, portugueses e estrangeiros, todo um subcatálogo de felinos,Visitar Amigos não tem uma política única de baptismo. Há nomes verídicos, nomes verosímeis, inverosímeis, meras iniciais, epítetos avunculares (‘Cabeça Falante’); e uma ‘Luísa’ (119) pela qual a voz narrativa responde pelo menos uma vez. Apetece dizer que só uma outra personagem se repete, sem protagonismo, para a qual são usados porém múltiplos nomes. Se é que Portugal conta como personagem. 
        De entre os inventados, alguns nomes são facetos e os que são facetos tendem a ser alegóricos, sem que isso alguma vez constitua uma redução arquetípica. Ainda que a escolha de nomes tenha um horizonte historio-sociológico, aliás, teorizado de forma oblíqua, cedo no livro, não nos é proposta uma tipologia. 
       Essa reflexão oblíqua surge de passagem no conto de abertura. Conto, aliás, magistral, sobre umas obras em casa por volta de 2020, em que se reconhecem todos os tropos e dilemas da renovação imobiliária que delimitam a imaginação nacional. Em parte, uma vida considerada em referência à casa em obras (sobre a qual se projecta a compreensão de um país eviscerado, a imitar materiais nobres); em parte, as obras como alegoria da obra, do métier — eis alguém (uma mulher) que dá pela sua casa virada do avesso em nome de um projecto cuja realização não pode acontecer sem a extenuação prévia de todos os entusiasmos. Proprietária e casa que se rendem à evidência de que não mandam na obra: é antes a obra que determina as suas exigências e personagens, obra essa que é preciso sofrer até ao fim para que a casa seja habitável. ‘A ditadura do proletariado’ descreve a terraplanagem dos interiores pelo “rolo da História” (9) e, noutro nível, pela exigência da obra, para usar a expressão de Blanchot.

(...)

texto completo Disponível na edição em Papel da COlÓquio/Letras