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045.A fotografia do futuro

Humberto Brito & Djaimilia Pereira de Almeida
Ensaio (excerto)
Publicado na ZUM
17 de Setembro de 2026


Imagens por toda a parte. Fotografias, fotografias de fotografias, imitações de fotografias, não-fotografias, retratos, selfies, nudes, naturezas mortas, vasos, vistas, vitrines, a variedade humana, floresta democrática, cidade contínua e idêntica, extensa disneylândia-ginásio de aeroporto em aeroporto, o presente. Seja o que for o ‘eu’, é hoje (mas “hoje” em que meridiano?) da ordem do erro de itinerário, da bagagem rolando esquecida no tapete de terminal para onde perdemos o voo de ligação, contudo, já ninguém se perde do mapa (da imagem) e todos os cães são cães domésticos, como diz Moriyama; e todos vamos de férias para bancos de imagens. Os filhos já nascem humanos de outra espécie, para um planeta fotocacofônico, video-superabundante, macho-esférico, google-mapeado; constituem-se já na epistemologia do deep fake — da ia — da teatralidade e da pose — da morte da privacidade — sabe Deus que virá desta bomba-relógio — tudo mudou para sempre e nada foi conquistado, ou antes, tudo está igual para pior, logo, o melhor está para vir e temos tudo pela frente: guerras, sismos, cismas, data centers — eram os melhores dos tempos, eram os piores dos tempos; e quando morrermos, vamos todos para a cloud. E choraremos os álbuns de família e os filhos que não tivemos, apetece comprar uma quinta, fazer cerâmica, tornar-se amish com as imagens, só escrever cartas a amigos, ficar a ler para sempre.
          Seja o que for o ‘eu’, quer dizer outra coisa, hoje, para a maioria. Algo entre “drone” e “dua lipa”. A gente ri-se ao ver um jovem youtuber que se filma a olhar para uma parede vazia durante uma hora para “maximizar” as suas capacidades. “Aqui estou eu”, dizia, de cara séria, “a não ver imagens, a não ver youtubes, a não interagir nas redes sociais”. Publico, ergo sum. A juventude em marcha marcha (em direcção a quê?), tudo quanto acontece acontece para ir dar a um feed, enquanto nas universidades finas os filhos dos ricos se juntam a novos clubes luditas, onde não tarda haverá jantares, seitas orgíacas, suicídios em grupo, tiroteios em massa. E, atrasado como sempre, cheio de pasmo, choque, alarme, virá um rebanho de jornalistas, haverá pânico, artigos, acesos debates, concertos solidários. Onde não estiverem, haverá bolsas de esperança, na esfera comum e privada. Pequenos gestos anônimos, a entreajuda sem a transacção, a partilha sem o algoritmo, a gentileza entre estranhos, a beleza dos corpos à luz da tarde, haverá calêndulas e figueiras, gargalhadas, refrescos, a mesa posta, almoços tardios entre amigos distantes — e haverá imagens. Alguém continuará a levar a mão ao caderno para desenhar alguma coisa, quando vir a beleza e a graça. Um verso, um braço, uma árvore, uma casa. Haverá formigas, porque haverá sobras, migalhas, caroços de fruta. E havendo a câmara fotográfica, haverá o impulso na direcção de tornar este gesto “consciente de si mesmo”, como disse John Berger.

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